Não entrarei em detalhes
de como era o laboratório e como foi a transição de lá até o inicio do tempo ou
destino escolhido por Jair. Nos apegaremos a partir do momento em que se pega
berrando pela dor incalculável da viagem mas já sem senti-la, assustado
pelo que passou.
- A quanto tempo estive
berrando? Foi uma eternidade?
Pausou, neste instante
notou que a medida do tempo existia mais subiu-lhe aflição enorme por não saber
como medir. Podia a letra de uma palavra do seu pensamento levar uma eternidade
a chegar. Sabendo que esta medida de tempo, entre uma letra e outra, não
mudaria nada posteriormente, mas que sem ela não saberia se existiria a
continuidade para próxima letra, ou melhor, do tempo, sentiu necessário uma
forma ou método para poder controlar esta medida, acalmar-se e retirar de si a
paralisia intemporal que sentia.
Prontamente o pensamento
lhe respondeu movimento. Não questionou quanto tempo a solução levou
para ocorrer. Desconsiderou a partir de então o valor da medida, bastando-lhe
se sentir saberia que estava lá o tempo, a medida, o movimento e sua vida
também, que era o que mais lhe importava aquela hora.
Não considerarei mais o
tempo e sua medida nesta história, não desejo ao leitor aflição ou sensações de
paralisia ao pensar sobre o assunto, mas é livre a ficar por aqui se assim
quiser. Continuaremos, considerando o movimento constante, pois Jair a esta
altura já tinha conseguido controlar aquele sentimento.
Pode ser difícil de compreender para alguns leitores, mas o
tempo sempre existira, não como real na época anterior a chegada de Jair, pois
nada existia. Não havia sequenciamento de fatos, ora, nada depois de nada ainda
é nada. Mas sempre esteve lá a espera de mais uma referencia. Para que o tempo ou
qualquer coisa se torne definida, precisa de sua observância e outra para
comparação, caso contrário é enganosa, iludida e elusiva. Em suma, a
inobservância de algo não significa sua inexistência mas sua definição depende
de uma comparação com algo já existente e sabido. A partir desta concordância podemos
continuar.
Após se acalmar por um instante, Jair tentou observar se havia ou encontrava algo além dele. Apontava para todos os sentidos, cima, baixo, direita, esquerda, frente, trás,
na grandeza aumentava e diminuía seu senso, mas não percebia nada, nenhum som,
nem calor, nem gravidade, nem seu corpo. Notou que não conseguia sentir a parte
exterior, tudo que sentia era ele mesmo. O único espaço que sentia era seu corpo, na mesma forma, pois
era tal que nasceu. Porém, ora
sentia a cabeça gigantesca com o corpo
muito pequeno, ora um braço esticando indefinidamente, ora alargando o tronco e
achatando-se, enfim, não havia limites
ao que sentia de sua forma. Era esquisito, desagradável e as vezes parecia não
perder o controle, outras vezes sim. Novamente viu-se com problemas de medição, mas com espaço sem sentir sua forma de maneira material ou forças externas para ajudar.
Desconfiou não ter corpo ou pensara estar sonhando. Resolveu
tentar abrir os olhos e concluiu que não estava sonhando, porque seus olhos não
abriam por mais que tentasse. Era um pesadelo acordado, realizou o que era estar cego,
surdo e mudo também. Mas pior, que sentia sua forma mas não seu corpo físico, nem a
respiração lhe vinha. Viu-se trancado em si com uma única coisa, seu conceito do que tinha aprendido durante seus vinte e poucos anos na
terra.
Foi ficando cada vez mais assustado, aflito e angustiado. Sentia
aperto no coração que não tinha, nervosismo e pressão em uma cabeça que não
existia e rangia dentes imaginários. Foi o inicio de uma epilepsia que tirou
sua consciência temporariamente e pôs no lugar todo descontrole de uma
convulsão mental.
Crescente e por tanto tempo que sua própria mente, de
repente, lembrou, em meio as espasmos, do que tinha estudado, 'se', o operador lógico. Imediatamente sua
convulsão foi diminuindo deixando o 'cérebro' lentamente pensar. O se, passou para, se
nada disso tenho, para, entre espasmos, se nada disso tenho então não tenho o que me preocupar.
Viu-se numa condição, "sou apenas uma mente que agora deve evoluir.".
Acalmando-se lentamente e novamente, sem pensar, meditava
até se acostumar com a nova vida.
Tudo isso, seus pensamentos e sentimentos duraram para Jair um
pouco mais que a leitura deste trecho, para o leitor. Mas se observado em tempo
real, foi um processo de trilhões de trilhões de anos. E esta fora a única
incerteza de Jair, sem medo ou descontrole, a duração de tanto sofrimento.
