"Eu vos direi
Amei para entendê-las
Pois só quem ama pode ter ouvidos
Capaz de ouvir e entender as estrelas." - Olavo Bilac
Fora ali depois de algum tempo que me veio a primeira reviravolta inesperada. Através do globo que me circundava e já não mais queria sair daquele lugar, com medo e completo temor da vida, uma mulher que passará na rua me olhou. Eu achei aquilo estranho, mas ela me olhava com olhos fixos, como se minha invisibilidade não fizesse diferença alguma. Achei no por algum momento que ela estava olhando para outra coisa, mas a duvida voltava quando o olhar dela parecia estranho. E foi que ela entrou no beco e começou a se aproximar cada vez mais de mim. Então não tive duvidas que me via. Gritei.
- Sai daqui!
E ela se aproximava mais ainda.
- Saia, eu não quero ninguém. E continuava a responder.
E ela se aproximava mais e mais. Até que atravessou meu globo, se abaixou e me disse:
- Tudo bem, vai ficar tudo bem. Não precisa ter medo.
E me olhou de uma forma mágica que me fez parar e num instante meu delírio tinha-se passado. Ela me olhava com uma face de caridade, com uma expressão de puro amor e carinho materno. Eu naquele momento já não sabia mais onde estava ou como aquilo podia ter acontecido. Num piscar de olhos ela mudou tudo o que sentia e me fez ficar bem, minhas forças voltaram, tudo estava tranquilo. Como se tivesse mudado da água para o vinho, me levantei e perguntei:
- Quem é você? Por que me fez isso?
E ela apenas agradeceu, me pediu desculpas e foi embora rapidamente. Me senti desconfortado e sem saber o que fazer. Aquela forma amorosa de me cuidar, de forma tão simples me desconsertou, desarranjou-me o pânico, o delírio e transformou em plenitude e serenidade. Não consegui perturba-la para questionar como ela tinha feito aquilo. Fora um momento mágico na minha vida que mal sabem o quão mudou o meu destino.
Dali questionei o que fazer, será que precisava dormir, descansar, mesmo sem ter como pagar por uma cama. Apesar de ter treinamento militar, me importava com o mínimo de conforto e aquilo que estava vivendo nada se parecia com isto.
Um pouco perdido mas quase que por completo e sob efeito daquela magia, decidi caminhar e não pensar mais, apenas caminhar que quem sabe em algum momento me surgiria alguma ideia. E quando saí do beco, não encontrei mais aquela mulher, havia sumido. Pensei, que se dane, eu não vou roubar, só que pagarei depois minha estadia, afinal, posso viajar no tempo, então só precisarei dar alguns golpes e depois posso conseguir um jeito de repor o prejuízo que causei. Me senti seguro para aqui e fui me hospedar em um hotel, que por sorte, naquele lugar, ainda se chamava hotel.
Falava hotel paras as pessoas que passavam na rua e um deles, um homem velho, me indicou com sinais, como se estivesse jogando jokenpô, batia numa das mãos, colocava um número e apontava a direção, esquerda ou direita e logo notei que queria dizer em quadras. Então fiz um sinal de círculos para trás e ele com sinais repetiu tudo de novo. Ainda bem que entendia o mínimo de sinais, e ele também. Me falou que a cinco quarterões dali, entre esquerdas e direitas, encontraria um hotel.
Me dirigindo para lá, pensei que pouco me importava dormir ou não dormir, aquele mundo ou minha vida não estava mais nas minhas mãos, eu era apenas um agente controlado e entendi o sentido real da Demoteica, era seguir ordens com paciência e calma, mas sem levar tudo muito a sério, com naturalidade pois tudo estaria em boas mãos no final das contas. Mesmo sabendo que alguma missão eu teria que cumprir, por algo difícil eu sei que teria de passar.
Passado um tempo meio que confuso fui tentando dormir. Me deitei e esperei lentamente o sono chegar.




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